23 de mai de 2010

Rumo na sopa do samba antigo

Paulicéia Avant-Garde: Grupo Rumo
GRUPO RUMO EM  1992
O cantor Geraldo Leite, membro do lendário Grupo Rumo, reuniu os antigos companheiros de banda no álbum Sopa de concha, lançamento da Biscoito Fino em parceria com o Instituto Moreira Sales. O disco visita repertório criado entre as décadas de 30 e 40 por grandes compositores. Mas ao invés do fácil caminho dos grandes sucessos de sempre, Geraldo optou por resgatar músicas que caíram em esquecimento.
GRUPO RUMO EM 2010
Entre achados de Geraldo Leite, que havia deixado a música de molho, nas últimas décadas, e lembranças da primeira formação do grupo Rumo, "Sopa de Concha" é uma nova reunião do grupo paulista em torno do apreço deles pela nossa música. Naturalmente, os arranjos podem soar mais modernos, não graças a novos instrumentos, que isso não é bem padrão para estabelecer esta referência, mas a alguns andamentos, um pouco mais acelerados. Caso da "Meu amor não me deixou" (Ary Barroso, 1938), que abre a festa em formidável duo de Ná Ozzetti e dos vocais dobrados por Hélio Ziskind e Geraldo. Formidáveis também, os saxes de Nailor Proveta. Já a faixa-título (Alcyr Pires Vermelho e Pedro Caetano, 1941) com Geraldo agora liderando Ná e Hélio mantém uma cadência mais lenta, evidenciando o respeito aos "antigos", como o grupo Rumo se referia há 30 anos em um disco. Antigos que Geraldo extraiu do imponente acervo de 78 rotações do Instituto Moreira Sales, no Rio. Tendendo para o samba, claro, o novo velho Rumo transgride-se, assim, em direção ao passado. E ao futuro, claro.
Mas a atualidade também se apresenta na segurança com que Hélio Ziskind e Luiz Tatit escracham, por exemplo, "Gosto mais do outro lado" (Assis Valente, 1934), ao arranjo com elementos ousados como o acordeom de Toninho Ferragutti junto ao violão mais "tradição" do próprio Swami Jr. "Era cantada pelo Bando da Lua, num daqueles geniais arranjos do grupo, onde misturavam uma espécie de gaita de pente (imitando sopros), com um trio de violões acústicos e um trio vocal com afinação perfeita", descreve, no encarte, o anfitrião da festa, em sua volta ao grupo. Por sinal, o arranjador tem seu violão junto ao do produtor Mário Manga, outro da formação original.
Fera em transcriações do universo antigo, como atestou em seu recente tributo a Carmen Miranda, Ná Ozzetti se destaca nesta nutritiva Sopa de Geraldo, participando de oito faixas. Ao piano de André Mehmari, parceiro de projetos mais recentes, leva o choro clemildeano "Honrando o nome de uma mulher" (Gadé e Valfrido Silva, 1935). Ela também "cai" na marcha-rancho em "Furacão" (Antônio Nássara e Haroldo Lobo), na segunda voz para Hélio Ziskind. Para ajudar os cariocas a levar suas chuvas torrenciais. Delicioso o arranjo de sopros de Milton Mori. Ná começa a festa na singela declaração de amor de Ary, completada pelo "Não tenho juízo" (Haroldo Lobo e Wilson Batista), do final. Nesse caminho, ela brilha no samba-choro "Juro... Juro" (Paulo Pinheiro e Valdemar Silva, 1939) e no sambão "Fale mal, mas fale de mim" (Ataulfo Alves e Marino Pinto, 1933). E, com Akira Ueno, lembra os sambas de Germano Matias em "Pão com banana" (Cícero Nunes e Portelo Júnior, 1939).
Pedro Mourão, Gal Oppido e Zécarlos Ribeiro dão voz ao baião "Pão Duro" (Assis Valente e Luiz Gonzaga, 1946, já na era pós-Humberto Teixeira do Rei do ritmo). E olha que seu registro original, pelo Lua, era uma marcha militar. O bom-humor do bom baiano Valente e do pernambucano em momento mágico. Mourão está ainda em "Você não tem razão" (Pedro Caetano), junto a Ziskind, o "speaker da estação" na marcha-rancho "PR.Você" (Cristóvão de Alencar e Hervê Cordovil). Geraldo Leite dá o tom da gafieira em "Vida Apertada" (Ciro de Sousa, 1940). "Ser pobre não é defeito/Mas é infelicidade/Nem sequer tenho direito/de gozar a mocidade", diz a saudação a Getúlio. Já o delicado Luiz Tatit dá sua graça novamente a "Não resta a menor dúvida" (Hervé Cordovil e Noel Rosa, 1935). O time do Rumo é completado por Paulo Tatit, no lamartiniano "Menina das Lojas". Outro ingrediente saboroso do sopão do Geraldo.
Sopa de Concha
Geraldo Leite e os amigos do Rumo
Biscoito Fino
2010
15 faixas
http://www.gruporumo.com.br/

19 de mai de 2010

Virando na Virada

Minha 6ª VIRADA CULTURAL!!!!! Pena que esteja ficando velha e cansada pra virar literalmente, porque este ano só assisti a 4 atrações. E como é difícil ficar no impasse entre a Saída da Parada Estelar e os shows da Zélia Duncan e do Nelson Sargento, todos no mesmo horário! A gente se vira como dá, não é?!?
Me lembro de, em 2005, ter encontrado o Tom Zé a esmo lá na São João. Foi paixão a primeira vista!!! Desde então, faço questão de ficar na primeira fila, encostada na grade, sendo espremida e maltratada, mas sentindo o suor do artista caindo em mim. Foi assim com o Geraldo Azevedo e com o Camelo ano passado, foi assim com o Baile do Simonal e com o Tatit (e acompanhantes) esse ano.

Assistimos um pedacinho da Zélia, mas bem a tempo de ouvir Capitu, do Tatit, pela primeira vez na Virada (momento a outra depois)  na voz da minha diva nº4 (das outras trato em outro momento). A música é, como se diz? Sei lá! Acho linda, e pronto!!!
"Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante"
Depois fui ver o Simoninha e o Max cantando Simonal. Bárbaros!!! E fiquei pertinho, há umas 4 pessoas de distância!!! E as fotos não me deixam mentir.

Cantei, dancei e fumei de tabela. Me senti: O negão!!!! Da cor! Até esqueci que sou pretinha amarelada.
Queria ter visto Orlandivo e Clube do Balanço, mas pra uma senhorinha, tia, namorada, irmã, "fessora", filha e aluna não dava mais... era muito tarde! Ou muito cedo? Cinco da matina é horário de acordar pra ganhar o dia, não de ir pro samba-rock.
Como fui dormir com os galos às 2 da matina, consegui ver Palavra Cantada no domingo às 9h. Foi o melhor!!! Cantei com as crianças a música da sopa, a da bolacha, a da fome e Criança não trabalha (minha preferida!!)

Depois fomos para o show do Tatit, Wisnik, Nestrovski, Celso Sim e banda. Esperamos pelos 55min. de atraso, mas valeu toda a pena do mundo... E a Zélia apareceu por lá!!!! (perdeu prayboy!!!!).
Cantaram Capitu!!!! De novo!!! Mas na voz do compositor, que, aliás, é a única pessoa no universo que canta "Quando A Canção Acabar ", de sua própria autoria, sem movimentar um músculo no corpo que não sejam os faciais indispensáveis ao canto. Imaginem toda a ginga de Luiz Tatit! Parece até aula de semiótica... credo! Tivemos também a belíssima canção "Feito Pra Acabar" de Marcelo Jeneci, Wisnik e Paulo Neves. Radiante em seu: 
"A gente é feito pra acabar
                                     A gentete é feito pra dizer que sim
                                     A gente é feito pra caber no mar
                                    E isso nunca vai ter fim."


Imaginem se ano que vem não estou lá de novo!!!


14 de mai de 2010

À LA CLAIRE FONTAINE

À la Claire Fontaine" é uma canção infantil da época do romantismo francês (início do Século XVII), e foi levada para o Canadá pelos soldados franceses. Lá converteu-se em hino nacional na revolta da Província de Quebec contra os ingleses em 1837. Ali ganhou uma versão em inglês muito conhecida. Esta canção faz parte de todas as listas folclóricas , infantis e dos escoteiros franceses.
A mesma música em duas versões de vídeo. A primeira é um trecho do filme 'O Despertar de Uma Paixão´ de 2006 em que a canção faz parte das cenas finais. Na segunda versão, temos um vídeo de escola de idiomas, provavelmente pra um curso infantil.





13 de mai de 2010

13 DE MAIO - Uma discussão sobre questões étnicas que vale a pena ter

Há 122 anos a princesa Isabel assinava a Lei Áurea, que garantia a liberdade de todos os escravos no Brasil. Embora o processo de desestruturação do mito da “democracia racial" tenha avançado muito nos últimos anos, no terreno da luta social e política perdura um grande atraso a ser superado. Cabe à República completar a Abolição com políticas públicas eficazes.

por Gilson Caroni Filho

No ano de 1983, uma foto estampada na primeira página do Jornal do Brasil renderia ao seu autor, o repórter-fotográfico Luiz Morier, o Prêmio Esso de fotojornalismo. Nela, um grupo de negros atados pelo pescoço por uma corda é levado pela polícia, após uma das frequentes batidas em favelas do Rio de Janeiro. Assemelhando-se àquelas pinturas do século XIX, em que aparecia o capataz com seu chicote ao lado de escravos amarrados, a fotografia de Luiz Morier era encimada por um sugestivo título: "Todos negros" A pergunta remete a duas questões que permanecem dolorosamente atuais: por que a data referência da libertação dos negros continua sendo o 13 de maio e qual é seu exato significado?
Talvez o questionamento mereça mais desdobramentos. Por que a crença de que vivemos numa democracia racial permanece tão enraizada no pensamento da maioria da população brasileira quando, ao nos determos no cotidiano social deste país, percebemos as profundas desigualdades que ainda envolve distintas etnias? A constatação de que os negros e não-brancos em geral são aqueles que possuem empregos menos significativos socialmente não seria evidência suficiente para demolir de vez um imaginário construído ao longo de dois séculos?
Apesar do contrapondo estabelecido pela criação do dia da Consciência Negra, permanece o costume frequente de nos curvamos diante do ritual do 13 de maio. A mesma elite que não aceita políticas de cotas, que protela a sanção do Estatuto da Igualdade Racial, enaltece a libertação dos escravos como inicio de uma nova era de liberdade. Sequer se dá conta de que notórios abolicionistas como Nabuco, Patrocínio, Rebouças e Antônio Bento, entre outros, afirmaram que a abolição só se cumpriria de fato com a reforma agrária e a entrada dos trabalhadores num sistema de oportunidade plena e concorrência.
Mesmo os setores mais progressistas, ao denunciar as condições sócio-econômicas dos negros depois de 122 anos de abolição, justificam a situação atual como resquício do passado escravo. Isso explicaria a permanência de mecanismos não institucionais de imobilização que atingem o segmento negro da população, produzindo distâncias sociais enormes, jamais compensadas? Ou é cortina de fumaça para preservar a aura de “bondade" da princesa branca? Estudos feitos sobre a época da chamada Abolição, mostram que 70% da população dos escravos já estavam livres antes de 1888, ou por crise econômica de algumas frações da classe dominante ou por pressões dos próprios negros, através de lutas, fugas e rebeliões.
A Lei Áurea foi, na verdade, uma investida bem sucedida das elites pelo controle político de uma situação que lhes fugia das próprias mãos. Sua eficácia ideológica pode ser atestada até hoje com os festejos do 13 de maio. O que é um indicador preciso da recorrente capacidade de antecipação política da classe dominante continua sendo percebido como "gesto magnânimo", exemplo da cordialidade vigente em nossa história política. A teoria dos resquícios (que de fato existem) tenta ocultar um fato relevante: os mais de um século de modo de produção capitalista e seus mecanismos de exclusão da população negra não permitem jogar todo débito na conta do passado.
Como observa Fátima do Carmo Silva Santos, secretária da União Negra Ituana( UNEI), a Lei Áurea foi na verdade um passo importante, mas como veio desacompanhada de reformas estruturais, resultou em "uma demissão em massa do povo negro, já que eles não tinham emprego, educação ou qualquer condição de conseguir um trabalho que não fosse com os seus senhores em troca de um teto".
Embora o processo de desestruturação do mito da “democracia racial" tenha avançado muito nos últimos anos, no terreno da luta social e política perdura um grande atraso a ser superado. Cabe à República completar a Abolição com políticas públicas eficazes. Enquanto tivermos um Demóstenes Torres(DEM-GO) responsabilizando os ex-escravos por sua própria escravidão- e publishers escravocratas pagando a capatazes magnolis para descer o açoite em jornalistas que noticiaram o fato- é fundamental que usemos a data para destacar a dimensão cultural, a construção social e ideológica de “raça" como elementos reprodutores de desigualdades sociais perpetuadas.
É a única comemoração possível em Paços Imperiais que, desde 1888, alforriam as más consciências de uma elite incapaz de elaborar projetos republicanos. As mesmas que criminalizam o MST para manter inalterada a estrutura fundiária que vem da Lei de Terras, aprovada em 1850. As mesmas que acham possível falar em libertação sem nenhuma política de inserção aplicada. O condimento neoliberal não esconde a essência escravocrata da direita brasileira. É bom pensar nisso em outubro.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

artigo disponível em: http://port.pravda.ru/cplp/brasil/29537-1/

12 de mai de 2010

Relembrando Nação

"Maracatu Atômico" do álbum Afrociberdelia de 1996, música de autoria de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, grande sucesso na voz de Gilberto Gil na década de 70. Afrociberdelia, que foi considerado por alguns críticos o trabalho de maior maturidade e repercussão do movimento mangue-beat, já que nele o conjunto emplacou uma série de sucessos além de “Sangue de bairro”, tais como “Manguetown”.
Maracatu pela relação com o local, o mangue; atômico pela referência à cultura pop global.O movimento enquanto manifesto conceitua o Manguebeat (a lama fértil e viva dos mangues potencializada pelos bits da cibernética). A sonoridade emergente, a batida do mangue (Manguebeat) no entanto não é única, como mostram os trabalhos das bandas Mundo Livre S.A. e Mestre Ambrósio, outros grupos relacionados ao movimento.

Maracatu Atômico

Composição: Jorge Mautner / Nelson Jacobina

No bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor
Toda fauna-flora agora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte
E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê

Atrás do arranha-céu tem o céu tem o céu
E depois tem outro céu sem estrelas
Em cima do guarda-chuva, tem a chuva tem a chuva,
Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê

No meio da couve-flor tem a flor, tem a flor,
Que além de ser uma flor tem sabor
Dentro do porta-luva tem a luva, tem a luva
Que alguém de unhas tão negras e tão afiadas esqueceu de pôr

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê

No fundo do para-raio tem o raio, tem o raio,
Que caiu da nuvem negra do temporal
Todo quadro negro é todo negro é todo negro
Que eu escrevo seu nome nele só pra demonstrar o meu
apego

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
No bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor,
Toda fauna flora agora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte

E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê

Declaração de amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguajem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisto de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gostai a de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escreve-nos atamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector in A descoberta do mundo.

11 de mai de 2010

Eu apresento a página branca.

                                                   Contra:
Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Hisstórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
Água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

                                         Contra a água.

Arnaldo Antunes in Tudos

9 de mai de 2010

Canta Anelis!!!! Como é gostoso gostar de alguém!

FELIZ DIA DAS MÃES!!!!


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora.
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

ANDRADE, Carlos Drummond de, 1902-1987. in Lição das coisas. Nova Reunião: 23 livros de poesia - vol. 2. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. pp. 91-92.

4 de mai de 2010

OU ISTO OU AQUILO

(Cecília Meireles)

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

3 de mai de 2010

Os diálogos de Alice


Uma reflexão sobre o significado da obra nos últimos 150 anos

Por
Maria Zilda da Cunha* e Nathália Xavier Thomáz**

E de que serve um livro sem figuras e nem diálogos? Esta frase é de Lewis Carroll, em uma de suas Alices. A questão que coloca reverbera em sua obra – dada a extrema iconicidade que ela atinge e a capacidade inusitada de estabelecimento de inúmeros diálogos. Instaurando-se na História e atravessando o ambiente tempório-espacial que o homem tece através da e na linguagem, Alice de Carroll acompanha tranquila e em múltiplos diálogos o advento de novas lógicas, novas geometrias, de novas fronteiras espaciais, novas físicas, novas matemáticas, de novas tecnologias e novas formas de relações sociais.
O hibridismo de gêneros e códigos, as referências e as contínuas operações intersemióticas, que permeiam a própria composição da obra, revelam uma mirada metalinguística, uma intensa consciência de linguagem, mesmo no interior do ato criativo. Esse processo ininterrupto de diálogo e de criação de signos – a que chamamos semiose – instalou-se na obra e faz de Alice no País das Maravilhas uns dos constructos ficcionais do século XIX com as mais fortes feições estéticas do século XXI.
Pensemos em uma personagem da qual não se tem a definição – Alice é menina, fada, bruxa, serpente, gigante, anã e monstro. Tudo e nada ao mesmo tempo. Relaciona-se com as mais inusitadas figuras e vivencia situações inesperadas. Alice é poder ser. Alice faz-se em formas de metamorfoses, modos de conexão, tal qual como um complexo diagrama da cadeia de pensamentos, e que ao fim e ao cabo, entre o risco e o rigor, em seu fluxo, enuncia e denuncia, por outro universo do absurdo, o absurdo de determinadas regras e valores instituídos por sistemas criados para regerem a vida do homem.
Lewis Carroll, em uma produção para crianças, arquiteta, a partir do nonsense e de paradoxos, caminhos labirínticos na justaposição de mundos entre o real e a fantasia. Os labirintos em Alice desestabilizam noções de tamanho, tempo, espaço e corrompem as molduras da lógica aristotélica; na esteira de Deleuze, destroem paradigmas esclerosados.
Alice é matéria literária, como diz Nelly Novaes Coelho, “mais ameaçadora que gratificante, ainda que procurem, ao longo do tempo, torná-la mais gratificante que no original”. Foi em 1862, durante um passeio no Tamisa, que o matemático e fotógrafo Charles Lutwidge Dodgson inventou uma história para entreter as filhas de um amigo, -
Henry George Liddell, o deão do Chist Church – e utiliza como personagem principal uma das meninas. Em sua narrativa envolveu pessoas, situações e canções que permeavam a vida das crianças, tornando-as participantes ativas na tessitura da estória.
Três anos depois, cedendo a um pedido de Alice – a ouvinte-protagonista – Charles escreve a narrativa para dar a ela de presente. O autor acrescenta ao texto verbal algumas ilustrações feitas por ele mesmo e intitula a estória: Alice por baixo da terra ( Alice’s Adventures Underground).

Mais tarde, publicou o livro, com ilustrações de John Tenniel, com o novo título: Alice no País das Maravilhas (Alice’s Adventures in Wonderland) e o faz sob o pseudônimo de Lewis Carroll.
Ao transferir-se para as folhas, que formaram o presente de Alice, e, posteriormente, o livro publicado em 1865, a estória sofreu um processo de adaptação, da narrativa oral para o suporte livresco. Portanto, pode-se dizer que foi o próprio Carroll quem começa o processo de releitura, revisitação, diálogo e reprodução de Alice no País das Maravilhas. Processo que foi realizado de maneira muito mais intensa com o advento da indústria cinematográfica.
Considerado “o primeiro grande nome da área do realismo maravilhoso dentro da literatura infantil moderna”, Alice exerceu uma enorme influência no imaginário da sociedade atual. Os ecos da obra continuam a reverberar nas produções culturais contemporâneas. Alice apresenta-se em inúmeras figuras e produtos, de desenho animado à personagem de vídeo-game, influenciando as criações midiáticas.
A primeira adaptação de Alice para o cinema foi realizada por Cecil Hepworth, em 1903, através de uma arte que começava a dar seus primeiros passos, sob grande influência do teatro e bastante vinculada a textos escritos para expressar as falas do cinema mudo. Depois deste primeiro trabalho, a estória foi revisitada muitas vezes pela linguagem cinematográfica.
Com certeza, a mais famosa até os dias de hoje é a animação de Walt Disney, lançada em 1951. Através da fantasia, do fantástico e do encantamento característicos das animações de Disney, a aventura de Alice ficou ainda mais popular. Algumas concessões foram feitas, muitas atenuações nos jogos propostos pelo nonsense do livro e, apesar de perder o caráter lúdico e crítico da obra original, a produção da Disney configura uma imagem que ainda ecoa no imaginário moderno.
Assistimos, este ano, a uma retomada do diálogo com Alice no País das Maravilhas pelos estúdios Walt Disney na produção de um filme dirigido por Tim Burton. A grande novidade é sua realização em 3D. A proposta desta versão – às vésperas do lançamento – é contar a estória de uma Alice adulta que retorna para o universo do nonsense carrolliano para ajudar as criaturas do País das Maravilhas.
O diálogo com a obra original já pode ser percebido pelas imagens divulgadas do filme. Observa-se a tentativa em criar uma estética tão desproporcional e absurda quanto à proposta pelo livro.
Como sabemos, o advento do 3D propõe uma nova forma de vivenciar a recepção cinematográfica, ao imergir o espectador na ação fílmica, altera formas de percepção visual. É possível que essa nova tecnologia possibilite outros modos de configurar os labirintos criados pela linguagem de Lewis Carroll, por meio de diagramas virtuais que operem de forma mais concreta e envolvente, no sentido de figurar, em outra materialidade, a arquitetura labiríntica da obra. No entanto, essas são apenas conjecturas; somente após a exibição e uma análise mais cuidadosa dessa nova versão, poderemos conferir se Alice ficou apenas mais gratificante ou se voltou a exercer seu papel ameaçador original.
Ao fim e ao cabo, é preciso lembrar: a estória de Alice estabeleceu diálogos com todas as formas de arte, num processo constante de atualização e revisitação. Há mais de 150 anos elementos dessa obra figuram no imaginário popular e falam à sociedade em que vivemos.

* Maria Zilda da Cunha é professora doutora do Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, na Área de Literatura Infantil e Juvenil da Universidade de São Paulo.
** Nathália Xavier Thomáz é mestranda em Estudos Comparados de Literaturas da Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo.

Artigo retirado da revista "Sete Fios", disponível em http://www.revistasetefios.com.br/?p=3138&page=2