25 de jun. de 2010

ANJO

Em cada precipício me sento
e um anjo me sussurra com calma
as encruzilhas,
as estradas desconhecidas.

Todos os meus anseios
estão em suas mãos
e com seu hálito me acalma,
me acalanta.

Durma, ele me diz, sentado
na beira de minha sombra,
não tenha medo dos sonhos.

MURRAY, Roseana. Carteira de Identidade. Rio de Janeiro. Ed. Lê.

22 de jun. de 2010

A FALTA

A morte (do latim mors), o óbito (do latim obitu), falecimento ou passamento são termos que podem referir-se tanto ao término da vida de um organismo como ao estado desse organismo depois do evento.
A morte é o fenômeno natural que mais se tem discutido tanto em religião, ciência, opiniões diversas. O Homem, desde o princípio dos tempos, tem a caracterizado com misticismo, magia, mistério, segredo. Para os céticos, a morte compreende o cessar da consciência, exatamente quando o cérebro deixa de executar suas funcionalidades.
É o cessar da vida, seja ela física, moral, intelectual, jurídica, morrida ou matada. A morte é também o jeito que Deus tem de te mostrar que você é procurado. Em algumas religiões a morte é considerada como uma salvação, como um marco que será relembrado por todos e até pelo Deus em questão. Mas ainda há quem diga que a morte é a passagem da vida na Terra para a vida no Céu ou no Inferno . Mas também acredita-se que a morte é apenas um cortador de cana, solitário, que ainda não encontrou amigos para conviver, e fica andando com roupas pretas e uma foice (seu objeto de estimação) para tentar chamar a atenção de EMO's que gostam de seu jeito de viver. A morte também gosta de visitar sem aviso, se ela bater na sua porta, não atenda... ou atenda vai ser um a menos!
Não sei porque ainda associo a imagem da morte à embarcação do Caronte... coisas de pensamento grego...
Quando morremos estamos apenas retornando para a nossa verdadeira vida. Nossa estadia na Terra é temporária e muito curta. A vida do espírito é eterna, a vida é passageira e curta e um dia todos nós iremos nos encontrar. Todas as lágrimas e sofrimento que temos depois da morte de nossos parentes é inútil, é perder tempo e poderia ser evitado se todos tivessem um entendimento mais claro sobre a vida e a morte.
Isso tudo não elimina a tristeza...

15 de jun. de 2010

A LÍNGUA MÃE

Não sinto o mesmo gosto nas palavras:
Oiseau e pássaro
Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe?
Seria porque não tenho amor pela língua de Flaubert?
Mas eu tenho.
(Faço esse registro
porque tenho a estupefação de não sentir com a mesma riqueza
as palavras oiseau e pássaro)
Penso que seja porque a palavra pássaro em
mim repercute a infância
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
Nela o menino que ia de tarde pra
debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux
Só tinha pássaros.
É o que me ocorre sobre língua mãe.

Manoel de Barros – In: O fazedor de amanhecer, 2001

8 de jun. de 2010

Zeca Hilst

"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse"



O texto é velhinho, mas o disco vale muito a pena.... Amo o Baleiro e a Hilda diz muito do que eu gostaria de dizer!


A poesia sonora de Hilda Hilst no baleiro de Zeca

Foi por iniciativa de Hilda Hilst (1930 -2004) que Zeca Baleiro se tornou parceiro da poeta paulista. Ao receber uma cópia do primeiro disco do compositor maranhense, Por Onde Andará Stephen Fry? (1997), enviada pelo próprio artista, Hilst ligou, propôs a parceria e mandou um disquete com sua obra poética.Foi no disquete que Baleiro descobriu o livro Júbilo Memória Noviciado da Paixão - escrito pela Hilda quando estava apaixonada platonicamente pelo Júlio de Mesquita Neto (vide as iniciais) - e decidiu musicar os versos do capítulo que dá título ao disco.

Depois de dois anos de trabalho, a gravadora de Zeca Baleiro, Saravá Disco, lançou o CD Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio - com poemas de Hilda Hilst musicados pelo artista maranhense.

O disco, segundo Zeca Baleiro, começou a ser gravado em abril de 2003 e teve aval da escritora e a colaboração do violonista Swami Jr. nos arranjos de base. Para musicar os dez poemas, Baleiro buscou uma sonoridade que se encaixasse nos poemas já em essência muito musicais de Hilst. Instrumentos como harpa, oboé e fagote ajudaram a criar o clima. Para dar mais charme ainda ao disco, Baleiro contou com a adesão de dez cantoras para interpretar as canções. Pela ordem de entrada no CD, o time é formado por Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria.

As intérpretes estão à vontade no despudorado universo poético de Hilst. O único deslize é de Ângela Maria, que, por conta de seu estilo naturalmente empostado, ficou meio deslocada. Mas no todo, o trabalho tem bom acabamento melódico, garantido pelo repertório de tom linear que assegura a uniformidade das canções ao mesmo tempo em que conta a história do amor impossível de Ariana e Dionísio. Um dos melhores momentos do disco é a Canção V, interpretada por Angela Ro Ro.

Título: Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - De Ariana para Dionísio
Artista: Vários
Gravadora: Saravá Discos

*Hilda Hilst faleceu no dia 04 de fevereiro de 2004, na cidade de Campinas (SP).

2 de jun. de 2010

“O homem: as viagens”

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.

Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?

Claro – diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
o acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

in ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 19 livros de poesia – 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. p.448-450
ULYSSES

(Fernando Pessoa)

O Mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundal-a decorre.
em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

1 de jun. de 2010

EU...

Eu queria tanto encontrar
Uma pessoa como eu...

Se eu fosse uma cor: AZUL
Se eu fosse um perfume: JASMIM
Se eu fosse uma flor: GIRASSOL
Se eu fosse um sabor: DOCE
Se eu fosse um doce: SORVETE
Se eu fosse um ritmo: SAMBA
Se eu fosse uma estação: VERÃO
Se eu fosse um horário: MANHÃ
Se eu fosse um lugar: PRAIA
Se eu fosse uma textura: CETIM
Se eu fosse um tecido: ALGODÃO
Se eu fosse uma roupa: VESTIDO
Se eu fosse um calçado: CHINELO
Se eu fosse um acessório: COLAR
Se eu fosse uma música:  A MENINA DANÇA (MORAES MOREIRA)
Se eu fosse um filme: O MÁGICO DE ÓZ (O DE 1939)
Se eu fosse um livro: A BELA E A FERA (CLARICE LISPECTOR)
Se eu fosse uma trilha sonora: O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (DE 1997)
Se eu fosse um poema: PROFUNDAMENTE (MANUEL BANDEIRA)
Se eu fosse uma banda: OS PARALAMAS DO SUCESSO
Se eu fosse um cantor: ZECA BALEIRO
Se eu fosse uma cantora: MARISA MONTE
Se eu fosse um compositor: CHICO BUARQUE
Se eu fosse um momento: A ETERNIDADE
Se eu fosse uma cidade: RECIFE
Se eu fosse um sentimento: SOLIDÃO
Se eu fosse uma palavra: AMOR
Se eu fosse um dia da semana: SÁBADO
Se eu fosse um videoclipe: ELA DISSE ADEUS (PARALAMAS)
Se eu fosse um álbum: VENTURA
Se eu fosse um desenho: CAVERNA DO DRAGÃO
Se eu fosse uma escritora: CLARICE LISPECTOR
Se eu não fosse eu: TENTARIA CHEGAR MAIS PERTO DE MIM!

23 de mai. de 2010

Rumo na sopa do samba antigo

Paulicéia Avant-Garde: Grupo Rumo
GRUPO RUMO EM  1992
O cantor Geraldo Leite, membro do lendário Grupo Rumo, reuniu os antigos companheiros de banda no álbum Sopa de concha, lançamento da Biscoito Fino em parceria com o Instituto Moreira Sales. O disco visita repertório criado entre as décadas de 30 e 40 por grandes compositores. Mas ao invés do fácil caminho dos grandes sucessos de sempre, Geraldo optou por resgatar músicas que caíram em esquecimento.
GRUPO RUMO EM 2010
Entre achados de Geraldo Leite, que havia deixado a música de molho, nas últimas décadas, e lembranças da primeira formação do grupo Rumo, "Sopa de Concha" é uma nova reunião do grupo paulista em torno do apreço deles pela nossa música. Naturalmente, os arranjos podem soar mais modernos, não graças a novos instrumentos, que isso não é bem padrão para estabelecer esta referência, mas a alguns andamentos, um pouco mais acelerados. Caso da "Meu amor não me deixou" (Ary Barroso, 1938), que abre a festa em formidável duo de Ná Ozzetti e dos vocais dobrados por Hélio Ziskind e Geraldo. Formidáveis também, os saxes de Nailor Proveta. Já a faixa-título (Alcyr Pires Vermelho e Pedro Caetano, 1941) com Geraldo agora liderando Ná e Hélio mantém uma cadência mais lenta, evidenciando o respeito aos "antigos", como o grupo Rumo se referia há 30 anos em um disco. Antigos que Geraldo extraiu do imponente acervo de 78 rotações do Instituto Moreira Sales, no Rio. Tendendo para o samba, claro, o novo velho Rumo transgride-se, assim, em direção ao passado. E ao futuro, claro.
Mas a atualidade também se apresenta na segurança com que Hélio Ziskind e Luiz Tatit escracham, por exemplo, "Gosto mais do outro lado" (Assis Valente, 1934), ao arranjo com elementos ousados como o acordeom de Toninho Ferragutti junto ao violão mais "tradição" do próprio Swami Jr. "Era cantada pelo Bando da Lua, num daqueles geniais arranjos do grupo, onde misturavam uma espécie de gaita de pente (imitando sopros), com um trio de violões acústicos e um trio vocal com afinação perfeita", descreve, no encarte, o anfitrião da festa, em sua volta ao grupo. Por sinal, o arranjador tem seu violão junto ao do produtor Mário Manga, outro da formação original.
Fera em transcriações do universo antigo, como atestou em seu recente tributo a Carmen Miranda, Ná Ozzetti se destaca nesta nutritiva Sopa de Geraldo, participando de oito faixas. Ao piano de André Mehmari, parceiro de projetos mais recentes, leva o choro clemildeano "Honrando o nome de uma mulher" (Gadé e Valfrido Silva, 1935). Ela também "cai" na marcha-rancho em "Furacão" (Antônio Nássara e Haroldo Lobo), na segunda voz para Hélio Ziskind. Para ajudar os cariocas a levar suas chuvas torrenciais. Delicioso o arranjo de sopros de Milton Mori. Ná começa a festa na singela declaração de amor de Ary, completada pelo "Não tenho juízo" (Haroldo Lobo e Wilson Batista), do final. Nesse caminho, ela brilha no samba-choro "Juro... Juro" (Paulo Pinheiro e Valdemar Silva, 1939) e no sambão "Fale mal, mas fale de mim" (Ataulfo Alves e Marino Pinto, 1933). E, com Akira Ueno, lembra os sambas de Germano Matias em "Pão com banana" (Cícero Nunes e Portelo Júnior, 1939).
Pedro Mourão, Gal Oppido e Zécarlos Ribeiro dão voz ao baião "Pão Duro" (Assis Valente e Luiz Gonzaga, 1946, já na era pós-Humberto Teixeira do Rei do ritmo). E olha que seu registro original, pelo Lua, era uma marcha militar. O bom-humor do bom baiano Valente e do pernambucano em momento mágico. Mourão está ainda em "Você não tem razão" (Pedro Caetano), junto a Ziskind, o "speaker da estação" na marcha-rancho "PR.Você" (Cristóvão de Alencar e Hervê Cordovil). Geraldo Leite dá o tom da gafieira em "Vida Apertada" (Ciro de Sousa, 1940). "Ser pobre não é defeito/Mas é infelicidade/Nem sequer tenho direito/de gozar a mocidade", diz a saudação a Getúlio. Já o delicado Luiz Tatit dá sua graça novamente a "Não resta a menor dúvida" (Hervé Cordovil e Noel Rosa, 1935). O time do Rumo é completado por Paulo Tatit, no lamartiniano "Menina das Lojas". Outro ingrediente saboroso do sopão do Geraldo.
Sopa de Concha
Geraldo Leite e os amigos do Rumo
Biscoito Fino
2010
15 faixas
http://www.gruporumo.com.br/

19 de mai. de 2010

Virando na Virada

Minha 6ª VIRADA CULTURAL!!!!! Pena que esteja ficando velha e cansada pra virar literalmente, porque este ano só assisti a 4 atrações. E como é difícil ficar no impasse entre a Saída da Parada Estelar e os shows da Zélia Duncan e do Nelson Sargento, todos no mesmo horário! A gente se vira como dá, não é?!?
Me lembro de, em 2005, ter encontrado o Tom Zé a esmo lá na São João. Foi paixão a primeira vista!!! Desde então, faço questão de ficar na primeira fila, encostada na grade, sendo espremida e maltratada, mas sentindo o suor do artista caindo em mim. Foi assim com o Geraldo Azevedo e com o Camelo ano passado, foi assim com o Baile do Simonal e com o Tatit (e acompanhantes) esse ano.

Assistimos um pedacinho da Zélia, mas bem a tempo de ouvir Capitu, do Tatit, pela primeira vez na Virada (momento a outra depois)  na voz da minha diva nº4 (das outras trato em outro momento). A música é, como se diz? Sei lá! Acho linda, e pronto!!!
"Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante"
Depois fui ver o Simoninha e o Max cantando Simonal. Bárbaros!!! E fiquei pertinho, há umas 4 pessoas de distância!!! E as fotos não me deixam mentir.

Cantei, dancei e fumei de tabela. Me senti: O negão!!!! Da cor! Até esqueci que sou pretinha amarelada.
Queria ter visto Orlandivo e Clube do Balanço, mas pra uma senhorinha, tia, namorada, irmã, "fessora", filha e aluna não dava mais... era muito tarde! Ou muito cedo? Cinco da matina é horário de acordar pra ganhar o dia, não de ir pro samba-rock.
Como fui dormir com os galos às 2 da matina, consegui ver Palavra Cantada no domingo às 9h. Foi o melhor!!! Cantei com as crianças a música da sopa, a da bolacha, a da fome e Criança não trabalha (minha preferida!!)

Depois fomos para o show do Tatit, Wisnik, Nestrovski, Celso Sim e banda. Esperamos pelos 55min. de atraso, mas valeu toda a pena do mundo... E a Zélia apareceu por lá!!!! (perdeu prayboy!!!!).
Cantaram Capitu!!!! De novo!!! Mas na voz do compositor, que, aliás, é a única pessoa no universo que canta "Quando A Canção Acabar ", de sua própria autoria, sem movimentar um músculo no corpo que não sejam os faciais indispensáveis ao canto. Imaginem toda a ginga de Luiz Tatit! Parece até aula de semiótica... credo! Tivemos também a belíssima canção "Feito Pra Acabar" de Marcelo Jeneci, Wisnik e Paulo Neves. Radiante em seu: 
"A gente é feito pra acabar
                                     A gentete é feito pra dizer que sim
                                     A gente é feito pra caber no mar
                                    E isso nunca vai ter fim."


Imaginem se ano que vem não estou lá de novo!!!


14 de mai. de 2010

À LA CLAIRE FONTAINE

À la Claire Fontaine" é uma canção infantil da época do romantismo francês (início do Século XVII), e foi levada para o Canadá pelos soldados franceses. Lá converteu-se em hino nacional na revolta da Província de Quebec contra os ingleses em 1837. Ali ganhou uma versão em inglês muito conhecida. Esta canção faz parte de todas as listas folclóricas , infantis e dos escoteiros franceses.
A mesma música em duas versões de vídeo. A primeira é um trecho do filme 'O Despertar de Uma Paixão´ de 2006 em que a canção faz parte das cenas finais. Na segunda versão, temos um vídeo de escola de idiomas, provavelmente pra um curso infantil.





13 de mai. de 2010

13 DE MAIO - Uma discussão sobre questões étnicas que vale a pena ter

Há 122 anos a princesa Isabel assinava a Lei Áurea, que garantia a liberdade de todos os escravos no Brasil. Embora o processo de desestruturação do mito da “democracia racial" tenha avançado muito nos últimos anos, no terreno da luta social e política perdura um grande atraso a ser superado. Cabe à República completar a Abolição com políticas públicas eficazes.

por Gilson Caroni Filho

No ano de 1983, uma foto estampada na primeira página do Jornal do Brasil renderia ao seu autor, o repórter-fotográfico Luiz Morier, o Prêmio Esso de fotojornalismo. Nela, um grupo de negros atados pelo pescoço por uma corda é levado pela polícia, após uma das frequentes batidas em favelas do Rio de Janeiro. Assemelhando-se àquelas pinturas do século XIX, em que aparecia o capataz com seu chicote ao lado de escravos amarrados, a fotografia de Luiz Morier era encimada por um sugestivo título: "Todos negros" A pergunta remete a duas questões que permanecem dolorosamente atuais: por que a data referência da libertação dos negros continua sendo o 13 de maio e qual é seu exato significado?
Talvez o questionamento mereça mais desdobramentos. Por que a crença de que vivemos numa democracia racial permanece tão enraizada no pensamento da maioria da população brasileira quando, ao nos determos no cotidiano social deste país, percebemos as profundas desigualdades que ainda envolve distintas etnias? A constatação de que os negros e não-brancos em geral são aqueles que possuem empregos menos significativos socialmente não seria evidência suficiente para demolir de vez um imaginário construído ao longo de dois séculos?
Apesar do contrapondo estabelecido pela criação do dia da Consciência Negra, permanece o costume frequente de nos curvamos diante do ritual do 13 de maio. A mesma elite que não aceita políticas de cotas, que protela a sanção do Estatuto da Igualdade Racial, enaltece a libertação dos escravos como inicio de uma nova era de liberdade. Sequer se dá conta de que notórios abolicionistas como Nabuco, Patrocínio, Rebouças e Antônio Bento, entre outros, afirmaram que a abolição só se cumpriria de fato com a reforma agrária e a entrada dos trabalhadores num sistema de oportunidade plena e concorrência.
Mesmo os setores mais progressistas, ao denunciar as condições sócio-econômicas dos negros depois de 122 anos de abolição, justificam a situação atual como resquício do passado escravo. Isso explicaria a permanência de mecanismos não institucionais de imobilização que atingem o segmento negro da população, produzindo distâncias sociais enormes, jamais compensadas? Ou é cortina de fumaça para preservar a aura de “bondade" da princesa branca? Estudos feitos sobre a época da chamada Abolição, mostram que 70% da população dos escravos já estavam livres antes de 1888, ou por crise econômica de algumas frações da classe dominante ou por pressões dos próprios negros, através de lutas, fugas e rebeliões.
A Lei Áurea foi, na verdade, uma investida bem sucedida das elites pelo controle político de uma situação que lhes fugia das próprias mãos. Sua eficácia ideológica pode ser atestada até hoje com os festejos do 13 de maio. O que é um indicador preciso da recorrente capacidade de antecipação política da classe dominante continua sendo percebido como "gesto magnânimo", exemplo da cordialidade vigente em nossa história política. A teoria dos resquícios (que de fato existem) tenta ocultar um fato relevante: os mais de um século de modo de produção capitalista e seus mecanismos de exclusão da população negra não permitem jogar todo débito na conta do passado.
Como observa Fátima do Carmo Silva Santos, secretária da União Negra Ituana( UNEI), a Lei Áurea foi na verdade um passo importante, mas como veio desacompanhada de reformas estruturais, resultou em "uma demissão em massa do povo negro, já que eles não tinham emprego, educação ou qualquer condição de conseguir um trabalho que não fosse com os seus senhores em troca de um teto".
Embora o processo de desestruturação do mito da “democracia racial" tenha avançado muito nos últimos anos, no terreno da luta social e política perdura um grande atraso a ser superado. Cabe à República completar a Abolição com políticas públicas eficazes. Enquanto tivermos um Demóstenes Torres(DEM-GO) responsabilizando os ex-escravos por sua própria escravidão- e publishers escravocratas pagando a capatazes magnolis para descer o açoite em jornalistas que noticiaram o fato- é fundamental que usemos a data para destacar a dimensão cultural, a construção social e ideológica de “raça" como elementos reprodutores de desigualdades sociais perpetuadas.
É a única comemoração possível em Paços Imperiais que, desde 1888, alforriam as más consciências de uma elite incapaz de elaborar projetos republicanos. As mesmas que criminalizam o MST para manter inalterada a estrutura fundiária que vem da Lei de Terras, aprovada em 1850. As mesmas que acham possível falar em libertação sem nenhuma política de inserção aplicada. O condimento neoliberal não esconde a essência escravocrata da direita brasileira. É bom pensar nisso em outubro.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

artigo disponível em: http://port.pravda.ru/cplp/brasil/29537-1/

12 de mai. de 2010

Relembrando Nação

"Maracatu Atômico" do álbum Afrociberdelia de 1996, música de autoria de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, grande sucesso na voz de Gilberto Gil na década de 70. Afrociberdelia, que foi considerado por alguns críticos o trabalho de maior maturidade e repercussão do movimento mangue-beat, já que nele o conjunto emplacou uma série de sucessos além de “Sangue de bairro”, tais como “Manguetown”.
Maracatu pela relação com o local, o mangue; atômico pela referência à cultura pop global.O movimento enquanto manifesto conceitua o Manguebeat (a lama fértil e viva dos mangues potencializada pelos bits da cibernética). A sonoridade emergente, a batida do mangue (Manguebeat) no entanto não é única, como mostram os trabalhos das bandas Mundo Livre S.A. e Mestre Ambrósio, outros grupos relacionados ao movimento.

Maracatu Atômico

Composição: Jorge Mautner / Nelson Jacobina

No bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor
Toda fauna-flora agora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte
E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê

Atrás do arranha-céu tem o céu tem o céu
E depois tem outro céu sem estrelas
Em cima do guarda-chuva, tem a chuva tem a chuva,
Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê

No meio da couve-flor tem a flor, tem a flor,
Que além de ser uma flor tem sabor
Dentro do porta-luva tem a luva, tem a luva
Que alguém de unhas tão negras e tão afiadas esqueceu de pôr

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê

No fundo do para-raio tem o raio, tem o raio,
Que caiu da nuvem negra do temporal
Todo quadro negro é todo negro é todo negro
Que eu escrevo seu nome nele só pra demonstrar o meu
apego

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
No bico do beija-flor, beija-flor, beija-flor,
Toda fauna flora agora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte

E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico

Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê, auêia, aê
Anamauê

Declaração de amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguajem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisto de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gostai a de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escreve-nos atamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector in A descoberta do mundo.

11 de mai. de 2010

Eu apresento a página branca.

                                                   Contra:
Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Hisstórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
Água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

                                         Contra a água.

Arnaldo Antunes in Tudos

9 de mai. de 2010

Canta Anelis!!!! Como é gostoso gostar de alguém!

FELIZ DIA DAS MÃES!!!!


Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora.
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

ANDRADE, Carlos Drummond de, 1902-1987. in Lição das coisas. Nova Reunião: 23 livros de poesia - vol. 2. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. pp. 91-92.

4 de mai. de 2010

OU ISTO OU AQUILO

(Cecília Meireles)

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

3 de mai. de 2010

Os diálogos de Alice


Uma reflexão sobre o significado da obra nos últimos 150 anos

Por
Maria Zilda da Cunha* e Nathália Xavier Thomáz**

E de que serve um livro sem figuras e nem diálogos? Esta frase é de Lewis Carroll, em uma de suas Alices. A questão que coloca reverbera em sua obra – dada a extrema iconicidade que ela atinge e a capacidade inusitada de estabelecimento de inúmeros diálogos. Instaurando-se na História e atravessando o ambiente tempório-espacial que o homem tece através da e na linguagem, Alice de Carroll acompanha tranquila e em múltiplos diálogos o advento de novas lógicas, novas geometrias, de novas fronteiras espaciais, novas físicas, novas matemáticas, de novas tecnologias e novas formas de relações sociais.
O hibridismo de gêneros e códigos, as referências e as contínuas operações intersemióticas, que permeiam a própria composição da obra, revelam uma mirada metalinguística, uma intensa consciência de linguagem, mesmo no interior do ato criativo. Esse processo ininterrupto de diálogo e de criação de signos – a que chamamos semiose – instalou-se na obra e faz de Alice no País das Maravilhas uns dos constructos ficcionais do século XIX com as mais fortes feições estéticas do século XXI.
Pensemos em uma personagem da qual não se tem a definição – Alice é menina, fada, bruxa, serpente, gigante, anã e monstro. Tudo e nada ao mesmo tempo. Relaciona-se com as mais inusitadas figuras e vivencia situações inesperadas. Alice é poder ser. Alice faz-se em formas de metamorfoses, modos de conexão, tal qual como um complexo diagrama da cadeia de pensamentos, e que ao fim e ao cabo, entre o risco e o rigor, em seu fluxo, enuncia e denuncia, por outro universo do absurdo, o absurdo de determinadas regras e valores instituídos por sistemas criados para regerem a vida do homem.
Lewis Carroll, em uma produção para crianças, arquiteta, a partir do nonsense e de paradoxos, caminhos labirínticos na justaposição de mundos entre o real e a fantasia. Os labirintos em Alice desestabilizam noções de tamanho, tempo, espaço e corrompem as molduras da lógica aristotélica; na esteira de Deleuze, destroem paradigmas esclerosados.
Alice é matéria literária, como diz Nelly Novaes Coelho, “mais ameaçadora que gratificante, ainda que procurem, ao longo do tempo, torná-la mais gratificante que no original”. Foi em 1862, durante um passeio no Tamisa, que o matemático e fotógrafo Charles Lutwidge Dodgson inventou uma história para entreter as filhas de um amigo, -
Henry George Liddell, o deão do Chist Church – e utiliza como personagem principal uma das meninas. Em sua narrativa envolveu pessoas, situações e canções que permeavam a vida das crianças, tornando-as participantes ativas na tessitura da estória.
Três anos depois, cedendo a um pedido de Alice – a ouvinte-protagonista – Charles escreve a narrativa para dar a ela de presente. O autor acrescenta ao texto verbal algumas ilustrações feitas por ele mesmo e intitula a estória: Alice por baixo da terra ( Alice’s Adventures Underground).

Mais tarde, publicou o livro, com ilustrações de John Tenniel, com o novo título: Alice no País das Maravilhas (Alice’s Adventures in Wonderland) e o faz sob o pseudônimo de Lewis Carroll.
Ao transferir-se para as folhas, que formaram o presente de Alice, e, posteriormente, o livro publicado em 1865, a estória sofreu um processo de adaptação, da narrativa oral para o suporte livresco. Portanto, pode-se dizer que foi o próprio Carroll quem começa o processo de releitura, revisitação, diálogo e reprodução de Alice no País das Maravilhas. Processo que foi realizado de maneira muito mais intensa com o advento da indústria cinematográfica.
Considerado “o primeiro grande nome da área do realismo maravilhoso dentro da literatura infantil moderna”, Alice exerceu uma enorme influência no imaginário da sociedade atual. Os ecos da obra continuam a reverberar nas produções culturais contemporâneas. Alice apresenta-se em inúmeras figuras e produtos, de desenho animado à personagem de vídeo-game, influenciando as criações midiáticas.
A primeira adaptação de Alice para o cinema foi realizada por Cecil Hepworth, em 1903, através de uma arte que começava a dar seus primeiros passos, sob grande influência do teatro e bastante vinculada a textos escritos para expressar as falas do cinema mudo. Depois deste primeiro trabalho, a estória foi revisitada muitas vezes pela linguagem cinematográfica.
Com certeza, a mais famosa até os dias de hoje é a animação de Walt Disney, lançada em 1951. Através da fantasia, do fantástico e do encantamento característicos das animações de Disney, a aventura de Alice ficou ainda mais popular. Algumas concessões foram feitas, muitas atenuações nos jogos propostos pelo nonsense do livro e, apesar de perder o caráter lúdico e crítico da obra original, a produção da Disney configura uma imagem que ainda ecoa no imaginário moderno.
Assistimos, este ano, a uma retomada do diálogo com Alice no País das Maravilhas pelos estúdios Walt Disney na produção de um filme dirigido por Tim Burton. A grande novidade é sua realização em 3D. A proposta desta versão – às vésperas do lançamento – é contar a estória de uma Alice adulta que retorna para o universo do nonsense carrolliano para ajudar as criaturas do País das Maravilhas.
O diálogo com a obra original já pode ser percebido pelas imagens divulgadas do filme. Observa-se a tentativa em criar uma estética tão desproporcional e absurda quanto à proposta pelo livro.
Como sabemos, o advento do 3D propõe uma nova forma de vivenciar a recepção cinematográfica, ao imergir o espectador na ação fílmica, altera formas de percepção visual. É possível que essa nova tecnologia possibilite outros modos de configurar os labirintos criados pela linguagem de Lewis Carroll, por meio de diagramas virtuais que operem de forma mais concreta e envolvente, no sentido de figurar, em outra materialidade, a arquitetura labiríntica da obra. No entanto, essas são apenas conjecturas; somente após a exibição e uma análise mais cuidadosa dessa nova versão, poderemos conferir se Alice ficou apenas mais gratificante ou se voltou a exercer seu papel ameaçador original.
Ao fim e ao cabo, é preciso lembrar: a estória de Alice estabeleceu diálogos com todas as formas de arte, num processo constante de atualização e revisitação. Há mais de 150 anos elementos dessa obra figuram no imaginário popular e falam à sociedade em que vivemos.

* Maria Zilda da Cunha é professora doutora do Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, na Área de Literatura Infantil e Juvenil da Universidade de São Paulo.
** Nathália Xavier Thomáz é mestranda em Estudos Comparados de Literaturas da Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo.

Artigo retirado da revista "Sete Fios", disponível em http://www.revistasetefios.com.br/?p=3138&page=2

30 de abr. de 2010

A Menina Dança

Composição: Galvão - Moraes Moreira

Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos

Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar

De um lado o olho desaforo
Que diz meu nariz arrebitado
E não levo para casa, mas se você vem perto eu vou lá
Eu vou lá!

No canto do cisco
No canto do olho
A menina dança

E dentro da menina
A menina dança
E se você fecha o olho
A menina ainda dança

Dentro da menina
Ainda dança

Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há!

Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos

ADORO ESSA MÚSICA NA VOZ DA MARISA MONTE, MAS A BABY É O QUE HÁ!!! E AS DUAS JUNTAS? 

29 de abr. de 2010

TRÊS COLOCAÇÕES...

1ª. 3ºG, vocês não vão me fazer desistir do meu sonho de serprofessora e nem ficar descrente na possibilidade de existir uma educação pública de qualidade

2ª. Prova não é atestado de burrice...

3ª. NÃÃOOOOOOO existe a conjunção "seje"!!!!!!!!!!!!!!!

A 4ªcolocação é pelo stress: redação não é escrita com "SS"!!!

EU MEREÇO!

25 de abr. de 2010

O GATO E O ESCURO

Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história.

Pois ele nem sempre foi dessa cor.

Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas.
Todos lhe chamavam o Pintalgato.

Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto.
Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro.
O caso, vos digo, não é nada claro.

Aconteceu assim:
o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite.
Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro.
Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.
A mãe se afligia e pedia:
- Nunca atravesse a luz para o lado de lá.

Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.

Mas fingia obediência.

Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá.
Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.

Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir.

Foi ganhando mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho.

Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite.

Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou.

Estavam pretas, mais que breu.

Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim.
Não queria ser visto em flagrante escuridão.

Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira.
E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade.
À medida que avançava seu coração tiquetaqueava.
Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão.

Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu? Virara cego?
Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto?

Chorou.
Chorou.
E chorou.

Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato.
Foi então que ouviu uma voz dizendo:
- Não chore, gatinho.
- Quem é?
- Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar porque olho tudo e não vejo nada.

Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz!
Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmo ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza.
E o escuro, triste, desabou em lágrimas.

Estava-se naquele desfile de queixas quando se aproximou uma grande gata. Er a mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:
- Pois eu dou licença a teus olhos:
fiquem verdes, tão verdes que amarelos.

E os olhos do escuro de amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.
O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então porque não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que me te medo. Somos nós que enchemos o escuro com nosso medos.

A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro.
E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as suas costas estavam das cores todas da luz.
Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. Afinal?
O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande:

- Você quer ser meu filho?

O escuro se encolheu, ataratonto.
Filho?
Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.
- Como posso ser seu filho se eu nem sou gato?
- E quem lhe disse que não é?
E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas.
O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente.

- Mas, mãe:
sou irmão disso aí?
- Duvida, Pintalgatito?
Pois vou-lhe provar que sou mãe dos dois.
Olhe bem para os meus olhos e verá.

Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.

Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encheram de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.
Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.

Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo.
Por detrás dessa fenda o que é que ele viu?
Adivinham?
Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo.

COUTO, Mia. "O gato e o escuro". 2ed. Lisboa: Editora Caminho, 2001.

21 de abr. de 2010

[500] Days of Summer - "500 dias com ela"




É a história de uma menino que encontra a menina que sonhou por toda a vida e essa história nos leva para os lados bom ou mau de se apaixonar, mas não do modo que comumente se vê frequentemente em filmes em que há sonhos por toda parte. Esta é uma versão, mesmo água com açúcar,  mais realista, pois o público se vê envolvido em seus próprios sentimentos, se sentindo mesma maneira que o rapaz se sentiu ao ser deixado.
O artifício de 500 Days of Summer é o não seguimento de uma ordem cronológica, saltando em torno de 488 dias a partir do dia 1 ao dia 157 dias 7 e 256 a 301 dias para 40 dias e assim por diante. Esta técnica permite que o filme, de certa forma, nos mostre os dois lados da situação romântica de uma vez e faz toda a experiência mais "divertida" para assistir (que é, afinal, mais comédia do que drama, na verdade, o drama é muito leve) por ser cheio de momentos peculiares e de comédia romântica.
Não esqueçamos a trilha sonora cheia de originalidade e clichê. Sem perceber, no decorrer do filme você se vê cantarolando. Sem contar o fofíssimo Joseph Gordon-Levitt com um  filme todo sob seu ponto de vista: o Tom Hanson cai de ponta-cabeça para o verão Zoey Deschanel Finn, mesmo quando ele é avisado por Summer que ela não quer um relacionamento, apenas divertimento, ser completamente independente, para não mencionar que ela é uma espécie de rainha de gelo radiante. Eles são completamente opostos e o final não poderia ser possível em conjunto (afinal de contas o filme avisa à platéia que esta história não era de amor).


Trilha sonora completa:

"A Story of Boy Meets Girl" - Mychael Danna and Rob Simonsen
"Us" - Regina Spektor
"There Is A Light That Never Goes Out" - The Smiths
"Bad Kids" - Black Lips
"Please, Please, Please Let Me Get What I Want" - The Smiths
"There Goes the Fear" - Doves
"You Make My Dreams" - Hall & Oates
"Sweet Disposition" - The Temper Trap
"Quelqu'un m'a dit" - Carla Bruni
"Mushaboom" - Feist
"Hero" - Regina Spektor
"Bookends" - Simon & Garfunkel
"Vagabond" - Wolfmother
"She's Got You High" - Mumm-Ra
"Here Comes Your Man" - Meaghan Smith
"Please, Please, Please Let Me Get What I Want" - She & Him

18 de abr. de 2010

Tatiana Belinky é a mais nova integrante da Academia Paulista de Letras

Academia Paulista de Letras recebeu um novo membro. Para ocupar a vaga que pertencia ao médico Pedro Kassab -- pai do prefeito de São Paulo Gilberto Kassab --, assume a escritora infanto-juvenil e tradutora Tatiana Belinky. A escolha foi anunciada na última semana. Consagrada como tradutora de clássicos como "Os Meninos da Rua Paulo", Tatiana ficou conhecida por adaptar, pela primeira vez, a obra do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, para a televisão.
A escritora também publicou os próprios livros, muitos voltados para a cultura russa -- isso porque Tatiana nasceu em São Petersburgo e veio para o Brasil aos dez anos. Uma de suas obras mais recentes é "Bisaliques Eta Bisa Boa", que enfoca limeriques, tipo de verso originário da Irlanda, para falar de uma bisavó.
Aos 91 anos, Tatiana Belinky costuma dizer que não tem uma carreira, mas “uma trajetória cheia de aventuras”. A mais recente delas começou na última quinta. “Estou pronta para trabalhar, como fiz a vida inteira”, afirma Tatiana, animada com a imortalidade, apesar da gripe fora de hora que a deixou rouca e com tosse na última semana. “Nem deu tempo de tomar a vacina.”
Dá para saber mais sobre os trabalhos da autora no site da editora Companhia das Letras. Sua obra, porém, é vasta e conta com cerca de 130 livros publicados -- alguns premiados pelo Jabuti e pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).

15 de abr. de 2010

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
Colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento


da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!

Do livro "Quintana de bolso", Editora LP&M Pocket - Porto Alegre (RS), 2006, pág. 59.